A dor do crescimento

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Quando eu era pequena, de vez em quando eu era acometida por uma dor na perna. Uma dor difusa, que eu não conseguia pegar, nem massagear, nada acalmava. Era uma dor incômoda, mas, ao mesmo tempo, não era uma dor insuportável a ponto de eu não me aguentar em pé. Também não era sempre, do mesmo jeito que vinha, ia.

Minha mãe dizia que era a dor do crescimento, que meus ossos estavam crescendo e que por isso doíam. Eu, ao mesmo tempo em que achava estranho alguma coisa se agigantando em mim a ponto de doer, ao mesmo tempo em que sentia a dor, eu me sentia meio orgulhosa e feliz com a tal dor do crescimento, pois me parecia uma evolução, uma conquista.

Hoje, olhando meu caminho até aqui, até os 40 onde me encontro, penso que essa dor do crescimento nunca passou. Crescer dói pra caramba e, até a morte, a gente nunca para de crescer, ou pelo menos de tentar.

Só que a dor é outra, vem de outro jeito e ela piora – e também melhora (a cura é a própria dor) – à medida em que a gente toma consciência de que os problemas que a gente tem não são dos outros, mas nossos e que cabe a nós, e somente a nós, lidarmos com aquilo de um jeito que não nos afete tanto.

Calma, não estou dizendo que o mundo e as pessoas não são capazes de nos maltratar a ponto de nos fazerem doer. São, claro que são. Mas amadurecer, a meu ver, está na capacidade de enxergar que o que o mundo fez, ou faz com a gente, muitas vezes será fruto de nossas próprias escolhas e que só a gente mesmo tem a ver com isso.

Explico. Descobrir que a culpa de seu relacionamento não ter dado certo se deu porque você não escolheu a pessoa certa pra você, ou escolheu a pessoa certa no momento errado; que o trabalho é uma droga, mas você não se mexe pra buscar outro, ou empreender em algo… enfim, que foi uma ESCOLHA sua e não da criatura, ou do chefe isso é difícil pra caramba, e dói feito a dor do crescimento.

Descobri que quando a gente se dá conta disso, de que somos responsáveis únicos por nossas escolhas, vai ter uma hora em que não haverá ninguém pra segurar nossa mão e que se você quiser, enfim, ser feliz e se libertar daquele obstáculo vai ter de ser você com você mesma, como quem rompe um casca, um casulo. Isso dói, dá até vertigem, mas creia, é a dor do crescimento operando pra você… crescer.

Dia desses li uma frase do Krenak dizendo que é o homem branco que tem essa mania de crescer pela dor, de precisar sofrer pra aprender. Ele citou o exemplo da pandemia, disse que ela não tinha nada de bom pra nos ensinar, a não ser tragédia e que era coisa de homem branco isso de querer tirar alguma lição positiva dessa desgraça. Concordei com ele mil vezes, mesmo sabendo que, sendo coisa de homem branco, fato é que a gente tem mania de precisar sofrer pra aprender a crescer. Que pena, poderia ser mais fácil.

Minha mãe está lendo um livro – Ubuntu, da Joana Gamillscheg – no qual ela traz o relato de um “castigo” para alguém que fez algo errado em uma tribo, salvo engano, na África. Nessa tribo, a pessoa que cometeu o erro vai para o meio da roda e toda a tribo, em volta dela, começa a dizer tudo o que essa pessoa fez de bom na vida e suas qualidades. Sim, você não leu errado, tudo o que ela fez de BOM, que é pra ela saber o quanto ela pode ser boa e não mais errar.

Nesse ápice da civilização descrita acima eu não sei se a gente, esse tal “homem branco” que somos, é capaz de chegar. De atingir tamanho crescimento emocional e espiritual como sociedade a ponto de podermos nos corrigir apontando o que de melhor temos, em vez de nos atirarmos pedras uns aos outros. Crescer pelo olhar do amor deve doer menos.

No entanto, se não for por bem, vai ser por mal que iremos crescer e, pior, se não crescermos, se não nos convencermos de que uma hora a vida nos corta o cordão umbilical a fórceps, que nos tira o direito de correr pro colo dos nossos pais, de culpar os antepassados pelo que deu errado, se a gente não conseguir ficar em pé por nós mesmos, a gente vai entrar num mar de lamentações infantis que nos deixará num eterno sofrimento.

Mas se ficar dói e se crescer dói, qual é a saída?

Simples, crescer e tomar as rédeas, e as responsabilidades para si, apesar de difícil, é libertador. Do mesmo jeito que a culpa é sua pelas escolhas, os louros também são seus pelas escolhas certas. E quando você ganha essa consciência, a de que você pode decidir a sua própria vida, ah amiga!, quando isso se enraíza em você, você cresce, mas cresce num grau que fica do tamanho do mundo.

Aí, desse tamanho, você pode escolher dividir o seu mundo com quem você quiser, sabendo que é uma escolha sua, fruto do seu amadurecimento, fruto de muita dor e de muitas alegrias também.

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