Ainda – e sempre – sobre ser mulher

ainda e sempre sobe ser mulher

Antes de vir aqui escrever para vocês – pra gente – estava eu a ler um trecho do livro que minha coorientadora me indicou. Sim, tem um orientador e uma orientadora supervisionando a minha tese porque eu sou sortuda.

Pois bem o livro da Heleieth Saffioti – publicado em 1979 – trata da “evolução” do papel da mulher na sociedade brasileira desde a colonização.

Amiga, não queira nem saber do quanto a gente foi castigada pra chegar até aqui.
Mas eu vou te contar, vou contar porque história contada é aquela que não se esquece e é imprescindível não se esquecer pra que não haja retrocesso, como estes que estamos vendo com relação à Ditadura Militar e a censura no Brasil de Bolsonaro. O tema “Ditadura Militar” nunca foi amplamente abordado pelas escolas, pelos políticos, pelas instituições responsáveis… Deu no que deu, um “cabo” que exalta um torturador se elege presidente do Brasil.

Voltando ao livro. Nosso corpo era mercadoria. Melhor dizendo, o corpo de uma parcela de nós, o das mulheres negras, era mercadoria, tanto braçal – cuidados com a casa, com a comida, com o cafuné das senhoras de engenho – bem como sexual, quando tinham de servir aos seus suseranos, e pior, quando eram “alugadas” a outros suseranos que queriam regalar-se em seus corpos objetos.

À mulher, branca, apesar de não passar por este tipo de humilhação, outras também lhes eram impostas, como a impossibilidade de socializar com o mundo, como a função de cuidar da casa e dos filhos exclusivamente, como a de satisfazer aos desmandos e vontades de seus “donos”, fossem pais, ou maridos, ou submeter-se a casamentos arranjados com homens mais velhos quando nem bem ainda tinham saído da infância, com treze anos de idade, ou ainda, sofrerem com o ciúmes de saberem que seus cônjuges as traíam com as escravas, sendo estas últimas, muitas vezes punidas pelas próprias mulheres brancas possessas de ciúmes.

Claro que sabemos que mulheres brancas também eram – são estupradas – pois imagine sendo negra na época da escravidão.

Sim, colegas, a baixaria, a grosseria, a violência, o absurdo eram grandes.

À mulher herdeira da terra, da colônia – a mulher branca, claro, à negra não lhe era dado nenhum direito – também acontecia de, quando o marido morria, era exigido que ela permanecesse viúva até o fim da vida para herdar o que lhe era de direito, caso contrário, perdia não só o direito à propriedade, mas à criação de seus filhos do primeiro casamento.

Você pode pensar que isso acontecia lá em mil quinhentos e bolinha, mas eu te digo que não, Zélia Gattai – mulher sobre quem estou fazendo minha pesquisa de tese. Você que lê minhas crônicas já deve estar careca de saber disso 🙂 – pois Zélia perdeu o direito ao convívio com o filho por ter escolhido viver com outro homem e isso se deu em meados do século XX, ou seja, ontem.

Lendo, fiquei me remetendo aos dias de hoje, dias em que as mulheres lideram mais da metade dos lares brasileiros. e que a nós nos foi dado o direito de criar nossos filhos sob qualquer circunstância. Não que isso signifique somente uma conquista, já que esta veio com muita perda. Se antes não se tinha o direito a ser, a existir como pessoa dona de suas vontades, hoje o dever é ser em dobro, em triplo: trabalho, casa, filhos, juventude eterna e por aí vai.

Muita coisa mudou, mas outras tantas nem saíram do canto.

Na maioria dos lares, salvo algumas exceções das quais eu sou testemunha, é a mãe quem cuida da educação, da alimentação, do lazer e de muitas “obrigações” relegadas à mulher porque, lá atrás, na formação da sociedade brasileira por dominação e colonização, para que o capitalismo se perpetuasse e para que as colônias dessem lucro, foi preciso que muitos corpos fossem sacrificados, quais sejam: o dos escravos, escravas e mulheres brancas.

Sim, é um assunto bem complexo, mas, para que o capitalismo progredisse, foi preciso que mulheres ficassem com o trabalho não remunerado da casa, do cuidado com os filhos, enquanto cabia aos homens a rua, o mundo, o trabalho fora de casa. Contudo, para completar a renda, muitas de nós ainda precisavam e precisam fazer os famosos “bicos”, seja de costureira, cozinheira, cuidar dos filhos das outras, etc para poder completar a renda.

Por muito tempo fiquei pensando nas questões de gênero e demorei para entender a crítica pela igualdade dos direitos entre homens e mulheres. Sim, é claro que temos diferenças em sermos mulheres e homens, lógico. A grande questão é quanto ao papel atribuído à mulher, os valores e a moral imputados a nós por sermos mulheres. Por que cabe à mulher criar os filhos? Por que a mulher precisa ser recatada, submissa, subserviente? Por que a gente precisar ter “modos”, sermos sorridentes e educadas, mães sempre amorosas e criaturas obedientes? Por que não podemos ser chefes de igrejas: pastoras, “padres”, “mamas” – não que eu considere isso como relevante, mas é notório o papel delas na sociedade? Por que coube a nós termos tantas questões com o corpo, com a velhice, com o “defeito”, enquanto eles continuam lindos e charmosos com seus buchinhos e cabelos grisalhos?

É esse papel que incomoda. É esse lugar pré-definido pelos homens, claro, afinal nós jamais nos colocaríamos por livre e espontânea vontade num espaço tão castrador, é desse lugar que a gente precisa sair. “Sair” não significa sair destruindo tudo, mas sim que precisamos reestruturar muita coisa.


Dia desses, li na revista Ela, do Globo, a existência de um app no qual muitas mulheres casadas estão entrando para encontrar ali desde sexo até consolo fora do casamento Você achando isso certo ou errado, não importa, importa que precisamos olhar para os comportamentos que acontecem na surdina para entendermos onde estamos errando.


É muito chão, é tema para muita discussão, a polêmica é gigante porque o sistema é forte, mas não vejo outra saída a não ser dialogar, ouvir, reivindicar, gritar, lutar… seguir EM FRENTE, resistindo bravamente contra o retrocesso disfarçado de moral e bons costumes que só servem para deixar tudo como já foi um dia lá em mil quinhentos e bolinha, lugar para onde a gente não admite voltar jamais.

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