Amar ou não amar?

amar ou não amar

Aqui na minha frente, um casal – ou quase casal, ou ex casal – conversa sobre o relacionamento.

Claramente a garota tá a fim de curtir a vida adoidada e o cara, coitado, tá apaixonado por ela. Quer compromisso sério e ela, como acabou de falar, quer “curtir o momento”, “passar bons momentos”, mas sem definir o que eles têm. O motivo da discussão, eu também captei, ela passou umas três semanas sumidas e ele sentiu falta. Já ela, achou super normal, disse que ligaria pra ele quando tivesse a fim. Ah, o casal deve ter vinte e alguns anos.

Gente, calma, não sou “futriqueira”, ela, a garota, é que fala bem alto e dá pra ouvir daqui de minha mesa. 

Curioso que esse flagrante se deu logo após uma conversa com uma amiga, esta da minha idade, que me relatou um primeiro encontro catastrófico com um cara de quarenta e poucos. De uma infantilidade e uma falta de elegância… Tão bizarro, que não vou entrar em detalhes aqui.

A pergunta que me faço e que eu te faço é: a que a gente precisa se submeter para estar ao lado de alguém? Qual é o preço que se paga pelo amor? Qual o custo emocional e físico para estar com o status de “namorando”, ou ainda, “casada”? Até que ponto a gente engole, renuncia, aceita pra poder caber numa história de amor?

Por outro lado, quanto de egoísmo, ou de medo de sofrer a gente submete a nós mesmas e, dessa forma, criamos conceitos, regras, formas engessadas de estarmos dentro do que achamos ser o lado correto em uma relação a dois? E assim, vamos travando o andamento leve, fluido, bom de uma relação?

Amar ou não amar? Qual a sua decisão?

Como não sou terapeuta de casal, muito menos possuo o oráculo dos problemas do mundo, não espere encontrar respostas para essas interrogações até o final do texto. Elas não existirão, simplesmente pelo fato de que elas não existem.

Tive uma tia avó, quer dizer, tenho, pois ela está tão viva em mim, que não morreu, portanto. Tia Quinquina, muito sábia, dizia: “não existe problema grande, o amor é que é pequeno”.

É fato, o amor causa efeitos mágicos, muitas vezes demoníacos, na nossa forma de acolher diferenças, como se ele, amor, maquiasse nosso lado narcísico, nossa mania de querer que o outro seja espelho de nossas expectativas, que atenda às nossas demandas de recalques, traumas e desapontamentos de relacionamentos anteriores. Por um lado, isso é ótimo, essa capacidade de sempre acreditar numa outra história, num novo amor…

Mas por outro lado… Somando-se a todo o histórico de novelas que assistimos onde os vilões pediam desculpas e fazia a mocinha feliz pra sempre, é meio perigoso a gente achar que no final tudo vai dar sempre certo. Às vezes, não vai.

Alô vida real, bom dia! Vamos amanhecer dos sonhos e tentar um acordo aqui entre nós, entre mim e você, entre ela e ele aqui da mesa à frente – gente, não vai rolar, a moça quer viver livre e o cara quer por gaiola, tá na cara que já era – entre minha amiga e o próximo.

Mas tentar como? Se duas pessoas não ocupam o mesmo lugar no espaço, se elas tentam viver como um, como um casal, vão ter de aparar arestas para caberem nesse micromundo que estão tentando criar e fazer com que resista a intempéries de temperatura e pressão que, se na Antártida chegou a 34 graus, bebê, porque com você vai ser diferente?

Adendo: muito preocupante essa ocorrência na Antártida, muito! Estou realmente preocupada com o fim do mundo. Socorro!

Mas, para o tema em questão, não vejo solução, sério. Porque abrir mão das nossas vontades porque tais vontades não estão em acordo com as vontades de outrem me parece bem absurdo. Contudo, nossa cultura nos impõe formas de nos relacionarmos – e nos submetermos – que romper com isso, com essa renúncia que uma relação exige, pode dar mais trabalho do que aceitar que há que ceder pra poder conviver.

Aguentar mau humores, algumas grosserias cotidianas, alguma falta de atenção, lidar com seu próprio ciúme, entender que o outro é outro e que ele tem seus desejos e esse desejo pode não passar por você de vez em quando, seja o desejo por outra pessoa, ou por uma viagem solo, ou mesmo por um sábado à tarde sem ninguém enchendo o saco, que o outro pode querer ficar só por um instante, por uns tempos.

Misturar tudo isso com o seu próprio tempo de cada uma dessas coisas, olhe… Sei nem como é que Vinicius diz que “é impossível ser feliz sozinho”. Devia ser o contrário, dá um trabalho gigante ser feliz em dupla, haja conciliação, meu povo.

Ok, nem tanto a Vinicius e nem tanto à Luciana, até porque, racionalizar histórias de amor é irracional. A verdade é que a gente fica cheia de teorias sobre como amar alguém até a gente de fato se apaixonar por essa pessoa e, a partir daí, ir renunciando, repensando, exercendo a empatia – o que é ótimo – procurando se colocar no lugar do outro e ver como você se sentiria se…

É difícil, abrir mão da gente é difícil. Mas, algumas vezes, esse “a gente” tem defeitos e pode valer à pena se transformar ao lado de alguém, com o apoio de alguém, para se tornar alguém melhor pra essa história que você e esse alguém resolveram apostar juntos.

E apostar numa história juntos tem muitas vantagens, você sabe, preciso nem descrever isso agora.

O limite é o sofrimento, penso, é o sofrimento. Se a renúncia gera uma dor muito grande, atente, você pode estar se violentando num nível tóxico, perdendo até sua essência. Mudar, a gente muda, mas virar do avesso é abuso do outro com você e de você com você mesma.

A dosagem disso é sua, os sinais aparecem desde o início. Fique atenta e, claro, ame muuuuuuito!!!    

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