Eu avatar de mim

paris só de ida

(Para ler ouvindo “Eu caçador de mim”, com Milton Nascimento)

Cansei de ser Luciana Targino. Sim, nesse mundo virtual, sinceramente, cansei de ser eu mesma, prefiro ser o meu lado B, a Paris Só de Ida.

– Valha, a escritora endoidou!

Não, pelo menos não completamente, pois desconfio dos totalmente normais depois de dois anos de pandemia e quatro de Bolsonaro. Misericórdia!

O que passa é que fui aconselhada por uma consultora de marketing a usar meu nome próprio nas redes sociais e mídias digitais e não o meu codinome, o que faz todo sentido, para que eu fosse mais “conhecida na internet”.

Acontece, beija-flor, que expor meu nome por amor à arte, não me agradou muito. Eu me senti uma estranha de mim mesma não sendo mais “Paris Só de Ida”. Eu me acostumei a ser ela, “a Paris”, como uma leitora me disse certa vez que se referia a mim em sua casa. Tem coisa mais fofa do que isso?

Assim como Stanislaw Ponte-Preta (Sérgio Porto), Julinho da Adelaide (Chico Buarque), Álvaro Campos e Alberto Caeiro (ambos Fernando Pessoa), dentre tantos outros puderam não sê-los na pessoa física e fantasiar com outros nomes e/ou personalidades, eu me autorizei a não me ser pelo menos aqui nesta janela aberta pro mundo, mesmo sem que eu veja ninguém.

Você está aí?

Não tem a ver com timidez, nada tem a ver com dupla personalidade, muito menos com uma vontade de enganar, ou me esconder. Não tem a ver com censura, pelo menos não ainda – e nem terá, se os Orixás permitirem, apesar de meu perfil Paris Só de Ida ter sido censurado no Instagram em 2018 devido a uma postagem acerca do golpe militar e 1964.

Censuradores, torturadores não passarão!!!

Retomando, não tem a ver com isso, mas com as possibilidades às quais nos permitimos – seja no pensar, no agir, no divagar – quando nos desobrigamos de ser aquilo que acreditamos ser a melhor versão de nós a ser apresentada ao mundo. Quando nos destituímos dos conceitos e preconceitos que nos impomos para nos adequarmos a padrões estabelecidos por pessoas que também escondem em si e de si mesmas “codinomes” que, torço, em algum momento deixem sair de dentro delas.

Tem a ver com a graça de se testar, tem a ver com botar máscaras, ou tirá-las. Tem a ver com gerar mais empatia, já que Paris Só de Ida é mais do que uma pessoa, mas um lugar pra onde a gente pode viajar só ou avec, viajar de alma, de subjetividade, pois a leitura faz ampliar nosso mundo, nos faz repensar – concordando, ou discordando – sobre nosso cotidiano, nossa vida, a vida do Outro (não com intuito de futrica, por favor, mas de se colocar no lugar deste Outro).

“Codinominar-se” tem a ver com umas pequenas férias de si mesma. Como se você falasse outra língua, num outro lugar, mas todo mundo te entendesse, mesmo pensando diferente de você, e isso seria o mais bacana, a troca pelo incômodo, a troca de diálogo, ou de pensamento a partir de uma leitura com a qual não temos total sintonia. Como se uma vida não bastasse para ser tudo o que se quer, e, portanto, fosse preciso inventar outra.

Eu inventei o blog “Paris Só de Ida” não como codinome, mas como outro lugar. Algumas pessoas já conhecem essa história, mas repito aqui para quem ainda não sabe.

Esse nome surgiu de uma ligação telefônica para a Latam, num desespero de tirar férias, de sair do lugar, dar um tempo no trabalho e na vida que estava me sufocando. Pois bem, o então marido não decidia de onde retornaríamos ao Brasil, mas a ida estava decidida: Paris. Com medo de ele acabar desistindo da viagem, eu corri pro telefone pra comprar as passagens. Segue o diálogo:

– Moça, eu quero uma passagem para Paris, de ida.

– Paris só de ida?

– SIM! PARIS SÓ DE IDA!

Comprei as passagens e desliguei apressadamente o telefone para criar meu blog, lá em 2013. Ao ouvir a criatura falar Paris Só de Ida me deu uma sensação de liberdade, de vida que seria vivida, aproveitada, curtida, me deu uma alegria tão grande que calhou com a minha vontade de botar pra fora o que já havia algum tempo, se escrevia em mim.

E surgiu “o Paris”, meu blog, só que eu me desfiz dele ao adotar meu nome. A liberdade de meu nome – Luciana Terra Targino – essa eu galgo na vida e trabalho na análise. Por aqui, nesse espaço sem muros e com poucas leis, eu sou outra e, por isso, veja lá na testeira deste blogo, mudei novamente a minha marca, com a mesma grafia linda, para “Paris Só de Ida”.

A vontade de escrever, de fazer refletir, de opinar, de falar de Bolsonaro a falar de amor continuam toda quarta-feira. Nada muda, só muda o fato de que eu, aqui, sou melhor sendo o meu lado B.

Espero que a gente se encontre em nossas viagens por aí.

Qual o seu codinome?

Você também pode gostar

Deixe aqui o seu comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *