Nosso entrelugar

nosso entrelugar

Você, feito rio, deságua num mar que era meu.

Era.

Povoa de memórias, cheiros, música e sabores um lugar que somente a mim pertencia.

Meu quintal tem pé de ti, brotado pelas sementes que deixastes cair enquanto distraído impregnava minha retina, minhas lembranças.

De hoje, já posso vivenciar todas as memórias das quais me lembrarei amanhã do que vivemos ontem.

Tempo encruzilhada entre pretéritos ora perfeitos, ora imperfeitos.

Quisera.

Quimera.

Nem vês. Mergulhas em teu mundo talvez pra fugir dessa correnteza que somos e que, por mais que tentemos ser “maduros”, sabemos: ao primeiro som da voz de Milton, a gente já mergulhou há séculos nesse lugar agora, depois e antes. Mal saímos daqui e já fomos, já somos.

Perdemos.

Ganhamos.

Perdemos pro mundo que insistiu mil vezes em nos mostrar que não. Ganhamos a luta contra uma vida sem vida, com menos vida, talvez, essa que não palpita.

Fogo.

(Me) chama.

A gente acende rápido.

Acho que a gente nunca apagou.

Fomos anos de faísca até o dia em que não demos conta do incêndio.

Seguimos queimando rio adentro, desconstruindo espaços, erguendo poesias. Mar, memórias, ar, flutuando num instante-quase, num entrelugar que fora meu, agora, sem donos, sem domínios. Ninguém tem a posse da Terra. Nem nós.

Entre nós, esse abismo onde pulo pra sentir o gosto da tua boca.

Todo dia.

Bom dia.

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